Tereza Simonsen F. Ferreira
     








o que nos conta Márcia Moraes, professora de um grupo de Pré da escola Vera Cruz, que trabalha também em uma escola de Música onde dá aulas de piano e de musicalização.
Márcia Moraes tem formação em magistério e habilitação em Educação Artística, com 20 anos de atuação em Educação Infantil. Toca piano desde os sete anos. Mais recentemente, tem trabalhado na formação de professores da rede particular e municipal dando cursos e oficinas de Música.
Palavra de professor - O que é cantiga de roda?
Márcia Moraes - Cantigas de roda ou rondas são aquelas brincadeiras onde a canção está associada ao movimento, geralmente em formação circular. Crianças, de mãos dadas, giram todas para o mesmo lado. Tradicionalmente são transmitidas pela família e por seus companheiros, em momentos informais e de lazer, no seu dia-a-dia. Sua origem se perdeu no tempo. Tem influência lusitana, africana, ameríndia e francesa.

Palavra de professor - É cultivada em todo o Brasil?
Márcia Moraes - As cantigas de roda são encontradas por todo Brasil com uma variedade enorme de temas e coreografias. Há muitas variações sobre o mesmo tema, são adaptações feitas naturalmente pela diversidade cultural e riqueza de vocabulário de cada região do Brasil.

Palavra de professor - Ainda hoje as crianças brincam de roda?
Márcia Moraes - Sim, principalmente aquelas que moram em regiões rurais e estão mais afastadas dos grandes centros urbanos. A rotina de pais e filhos, moradores das grandes cidades, está cada vez mais atribulada e não há mais momentos de lazer, onde esse tipo de brincadeira é praticada. Ou seja, onde existe um espaço em que crianças de diferentes idades podem brincar livremente, onde a criança tem um espaço de expressão e movimento.

Palavra de professor - As crianças ainda gostam de brincar de roda?
Márcia Moraes - Tenho trabalhado muito com as cantigas de roda dentro da escola, tanto com crianças quanto com adultos e, o que percebo, é que ainda fazem muito sentido para as pessoas. Há um resgate daquilo que já foi vivido em algum tempo e continua vivo em cada um de nós. O prazer de participar de uma brincadeira cultural, roda de verso ou ciranda é muito intenso ainda hoje.

Palavra de professor - Por que é importante as crianças aprenderem as cantigas?
Márcia Moraes - Nestes momentos de brincadeira, além da satisfação vivenciada pelos participantes e a liberação de energia, podemos perceber e trabalhar com diversos elementos musicais, como a canção, o ritmo, os diversos andamentos e intensidades, diferentes pulsações, etc. É uma atividade que propicia a aproximação entre as pessoas de um grupo ou comunidade, a expansão da criatividade, o despertar da atenção e, especialmente, o conhecimento e a valorização da própria cultura.




ABRA A RODA tin do lelê é um CD de Música Tradicional da Infância, conforme Lydia Hortélio denomina no encarte do CD, com textos vindos de diversas regiões do nosso país. Partindo das "Rodas de Verso", passa pelos "Brinquedos de crianças maiores", pela música dos "Contos Populares" e pelos "Brinquedos e Brincos das crianças pequenas", chegando nas "Cantigas de Ninar".
Lydia conta que o disco é um trabalho documental e de recriação. Muitas das músicas e brincadeiras são cantadas pelas próprias crianças da Casa Redonda - uma escola infantil nos arredores de São Paulo. Outras foram executadas pelo grupo Zabumbau - uma jovem orquestra de percussão brasileira - que procurou traduzir para seu instrumental os ritmos, as melodias e os timbres da voz recitada.
O CD apresenta músicas para serem brincadas com o corpo, com a palavra e com o movimento, e traz no encarte explicações intituladas "Como se Brinca": um convite a mães, pais e professores que queiram ler esses textos para relembrar sua infância e brincar com as suas crianças.
A pesquisadora mostra como a Música Tradicional da Infância é patrimônio da cultura de um povo, pois encobre os arquétipos e as características estruturais e poéticas da língua mãe musical. Daí a necessidade de cultivar a consciência do brasileiro em relação à nossa música.
O ABRA A RODA tin do lelê nos traz alegria e saudades da infância, até dá vontade de brincar! Vale a pena conferir.

ABRA A RODA tin do lelê
Pesquisa, transcrição, textos e direção: Lydia Hortélio
Participação especial: Antonio Nóbrega
Distribuição: Brincante Produções Artísticas Ltda
Rua Purpurina, 428 - Vila Madalena.
Gravação, mixagem e masterização: Gustavo Lenza - Dub Studio
Direção de estúdio: Edmilson Capeluppi e Zezinho Pitoco
Produção: Instituto Brincante
Participação: de vários músicos e cantores; de Crianças da Casa Redonda e de Meninas do Zabumbau
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iranda, cirandinha, vamos todos cirandar..." Quem não se lembra dessa música? Afinal, ela fez parte de nossa infância e nos traz ótimas recordações.

Mas, nem sempre as crianças conhecem as cantigas de roda, principalmente as que vivem em cidades grandes, como São Paulo, e moram em apartamentos, cercados por tecnologias que não privilegiam a cultura popular. Nesses casos, as crianças têm um acesso mais restrito às cantigas e brincadeiras como as de roda.

São essas as circunstâncias que tornam importante o trabalho realizado por educadores e pesquisadores como Câmara Cascudo ou Lydia Hortélio. Ambos buscam preservar a memória cultural brasileira, cada qual a seu modo: Cascudo com seus livros - em que traz recolhidos inúmeros exemplares da cultura oral, e Lydia com seu CD ABRA A RODA tin do lelê.

Palavra de Professor apresenta esses autores que estão preocupados em rememorar as cantigas de roda, expressão da cultura espontânea que deve estar presente na experiência de vida de qualquer criança. Afinal, essa é mais uma forma de manter viva a cultura de nosso povo e aproximar a aprendizagem realizada na escola do contexto cultural brasileiro.

Câmara Cascudo (1988) chama de "cantigas-de-roda" as brincadeiras do folclore dançadas ou cantadas que apresentam melodias e coreografias simples. As crianças se colocam em roda e, de mãos dadas, cantam textos conhecidos que ouviram aqui e ali. Assim, ela canta sem pensar e aprende a brincar com aquela canção.

O mesmo autor denomina "brincadeiras-de-roda" aquelas em que as crianças brincam sentadas, em fileira, em marcha, de palmas, de pegar, de esconder, incluindo também as chamadas para brincar e para selecionar jogadores.

Ainda segundo Cascudo, em relação às outras modalidades de canções populares, as cantigas de roda se destacam pela sua constância "(...) apesar de serem cantadas umas dentro das outras e com as mais curiosas deformações das letras, pela própria inconsciência com que são proferidas pelas bocas infantis" (CASCUDO, 1988, p. 676).

A música do sapo é muito cantada nas rodas, com variações que ora destacamos:
Sapo pururu
na beira do rio,
quando o sapo grita, ô maninha
é que tá com frio.

A mulher do sapo
também tá lá dentro,
fazendo rendinha ô maninha,
pro seu casamento.

Ou então, encontramos também a seguinte versão:
Sapo cururu
na beira do rio
quando o sapo canta, ô maninha
ele tá com frio.

A mulher do sapo,
foi quem me contou,
que o marido dela, ô maninha
era professor.

Outra característica de uma produção da cultura popular é que "as manifestações folclóricas nascem dos impulsos criadores, tanto individuais como coletivos. De mão-em-mão, de boca-em-boca ele se faz: cada um improvisa, recria, deixa a sua marca, introduz novos padrões" (MICHAHELLES, 2004, p.3).
Essa autora aponta que as cantigas de roda são compostas por rodas com variações coreográficas e canções associadas a elas, com personagens e histórias. Ao ocupar a posição de personagem, a criança vivencia e representa seu mundo interno.
Podemos citar cantigas e brincadeiras em que cada participante é chamado a se movimentar de uma certa maneira:
"... palma, palma, palma; pé, pé, pé; roda, roda, roda, caranguejo peixe é...";
"... samba ô Lelê tá doente, tá com a cabeça quebrada, samba ô Lelê precisava, é de umas boas palmadas, samba, samba, samba ô Lelê, samba na barra da saia ô Lalá...";
"Atirei o pau no gato-to, mas o gato-to, não morreu-reu-reu, dona Chica-ca, dimirou-se-se, do berrô, do berrô que o gato deu: MIAU!!!!!!!"
As cantigas fazem a criança brincar e ter contato com outras crianças de um jeito em que elas se sentem participantes da cultura brasileira, pois são músicas cantadas em qualquer lugar do Brasil.
Portanto, o registro de canções que resgatam o repertório de músicas infantis e preservam a memória viva de nossa cultura popular, é uma tarefa importante para nós, educadores.
Assim, ressaltamos seu valor na educação infantil, pois é na infância que se aprende a valorizar a riqueza de nossas tradições culturais. Nesse sentido, o papel do educador é fundamental, pois ele pode e deve dar espaço para que a criança brinque de ciranda.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CASCUDO, Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro.
Editora Itatiaia. Belo Horizonte, MG, 1988.

HORTÉLIO, Lydia (pesquisa e direção). ABRA A RODA tin do lelê. Manaus: Microservice Tecnologia Digital da Amazônia: [s/ data]. 1 disco compacto: digital. BRI 001-2. Sob encomenda e distribuição de Brincante Produções Artísticas.

MICHAHELLES, Benita. Cantigas e Brincadeiras-de-Roda na Musicoterapia. http://www.taturana.com/cantigas.html